29 de abr. de 2017

(Metafísica)

Arte: Multiple personality paintings,  Margarita
Acontece algo quando você recém aprende sobre perdurantismo, ainda que a ideia não seja abraçada por completo, ainda que a suposição lhe soe absurda demais para o mundo sensível. Ocorre um deslumbramento, pois a teoria, se aplicada na prática, poderia explicar de um modo mais preciso o porquê das coisas serem como elas são, além de permitir compreender as consequências das mudanças num aspecto visual (e imaginário).
O tempo, para os perdurantistas, é tratado como uma quarta dimensão, que, na minha opinião, seria tão corpórea quanto o mundo físico que conhecemos, caso pudéssemos de fato observá-lo. Os filósofos perdurantistas creem em partes temporais, o que significa que somos uma só pessoa, mas uma parte de cada vez. E o que seriam "partes temporais"? Basta imaginar um cilindro, sendo que cada rodela dele representa uma parte temporal, enquanto o sólido seria a junção de todas as partes temporais de uma pessoa. Existem muitas dúvidas quanto a isso: que objetos, exatamente, seriam compostos de partes temporais (seres humanos, organismos vivos de modo geral ou o universo como um todo)? Quanto tempo dura uma parte temporal? Particularmente, acho que essas perguntas não são essenciais à questão. O que importa é o fato de uma teoria conseguir, à seu próprio modo, sanar dúvidas sobre o comportamento do eu - seríamos de fato a mesma pessoa durante toda a nossa vida, ainda que mudemos de átomos, fluídos e pensamentos com grande frequência?
O perdurantismo une essas duas perspectivas inicialmente contraditórias. Ele concorda que somos a mesma pessoa sempre e concorda também que não somos organismos imutáveis. E talvez a crença em partes temporais seja uma bela explicação para situações cotidianas, tais como a mudança de banda favorita, a falta de contato com um amigo, a desistência de um curso da faculdade, etc. Situações como essas não teriam acontecido meramente porque "pessoas mudam", mas sim porque "estamos em uma parte temporal diferente agora".

16 de jan. de 2017

(Paralelos)



Questionamos universos que não conhecemos simplesmente porque parecem menos plausíveis quando comparados com o mundo real no qual habitamos. Mas, hipoteticamente, se esse universo surreal 1 (e mais complexo) fosse a nossa realidade de fato, o mundo real no qual habitamos hoje não faria sentido nenhum nessa realidade paralela. Os céticos iriam questionar o simples demais, pois estariam acostumados com as complexidades de uma dimensão diferente. Nesse universo surreal 1, todos os outros universos surreais não fariam sentido e seriam questionados tal como fazemos hoje no mundo real no qual habitamos. Em meio a isso, qual seria o mundo real mesmo? É real aquilo que só conseguimos ver e sentir? Como encaixar uma realidade numa infinidade de possibilidades? Questionamentos assim podem mostrar que não há engano em acreditar em outras dimensões ou no próprio limbo. No dia-a-dia, buscamos enquadrar a verossimilhança a partir de nossa memória e de nosso pensamento. O real ou falso, o possível ou impossível é apenas uma questão de perspectiva. É por isso que o plausível nada mais é do que limitado por nossa própria crença.

21 de set. de 2016

(Efeito Luminoso)


Arte: Sky Painting, Alice Helwig
Naquele dia, entre conversas sobre emoções e superficialidades, ele me disse que sentia falta de seu primeiro amor. Disse que esse relacionamento fora o último se sua vida, pois jamais se encaixaria tão adequadamente em outra frequência. Tratava-se, então, daquela fase que denomino como entorpecente pós-término (e não existe aqui outra palavra tão sucinta e bem empregada nesse contexto quanto essa: é uma dormência característica que nos faz ter plena convicção de que pouco ou quase nada importa daqui para a frente).
Em meio a seus desabafos, eu disse que o compreendia mais do que ele imaginava. Subitamente, a conversa atingiu um grau mais profundo - o que, convenhamos, por ser tão raro é muito bom quando acontece - e ele me seduziu com palavras por conseguir ampliar visões de mundo.
Ele me disse que ela foi embora, sim, mas isso foi o esperado desde sempre. Não que ele tivesse plena convicção de que eles terminariam um dia ("afinal, nunca podemos ter certeza de uma coisa dessas"). Não que eles tivessem discutido muito nos últimos meses/semanas/dias. Ele só aprendeu, por força de hábito e experiência, que pessoas muito tem a ver com fenômenos naturais.  Explico:
Existirão pessoas raio de sol e outras gota de chuva, ou seja, muito além da discrepância existente entre suas características singulares, elas estão perto com grande frequência. Existem outras, por outro lado, que aparecerão com uma periodicidade menor; são luas cheias, minguantes. E outras que aparecem muito pouco, como o eclipse, a lua azul ou o El Niño (o que, como se é perceptível, definitivamente não caracteriza uma falta de impacto na vida de alguém).
Ele me ensinou em meias palavras abarrotadas de metáfora e humildade que, muitas vezes, nos resta aceitar tais efeitos e tentar tirar proveito deles. "E, quem sabe aprendendo com erros e defeitos, podemos nos qualificar como um fenômeno ideal."
Ela fora relâmpago vulcânico (o que é raro, mas suas labaredas assemelham-se com portas para o inferno). Ele trabalha para ser pôr do sol, justamente por valorizar a presença acima de todas as coisas. Eu não soube responder na hora, mas penso que um fenômeno de grande frequência seja, na verdade, muito cansativo. Prefiro ser aurora boreal: aparecer relativamente menos, mas causar mais impacto.

29 de ago. de 2016

(Divago)


Arte: My World, Laurentiu Dimisca

entre todos os percursos que poderia ter feito
naquela manhã ensolarada,
dentre todos os estímulos que tive,
num dia nada cordial,
dentre todos os sóis que poderiam ter nascido,
justamente o mais iluminado,
entre todos os fluidos que já percorreram o meu corpo,
endorfina resolveu aparecer,
entre todos os pensamentos que ocorriam sem interrupções,
fiquei paralisada com a inércia,
entre todos os sentimentos que poderiam ter aflorado,
curiosidade e certeza
entre todos os lugares que eu poderia ter estado,
encontrei você,
caminhando aturdido pela praça e
com um sorriso enviesado,
soube que você havia me encontrado
também

21 de ago. de 2016

(Consciência)


Arte: Cupid and Psyche, Benjamin West
Usando seus olhos esbugalhados e trazendo consigo não somente um sorriso inocente, mas um coração sintonizado com as frequências melancólicas, conversamos. Seus relacionamentos entoavam um sonido mórbido e distante, mas ela não deixava de confiar no fato de que tinha um conhecimento quase que absoluto sobre todas as coisas. Dizia que não se encaixava no mundo, como se a falta de pertencimento fosse marca de nascença escrita em braile. 
Mas, para mim, por mais que eu não deixasse transparecer, ela fora simplesmente embrulhada em milhares de equívocos e muitíssimas experiências que moldaram quem ela é hoje. Não me entenda mal: sei perfeitamente que todo o ser humano nada mais é do que a aglutinação de toda a sua história. Mas ela parecia contar a sua de uma maneira específica demais, errada demais. 
Ou só é aí que surge uma paixão - logo nos momentos mais duvidáveis - que me faz vê-la de uma forma como nunca vi ser humano algum. Como se ela fosse o centro do mundo, dotada das qualidades que mais prezo e dos defeitos que mais evito. Paixão essa que os descrentes do amor evitam até o último segundo. Até, é claro, mergulhar num precipício profundo e num mar de rosas ao mesmo tempo. 
Apesar de todo o sentimento que admito ter, me habita também a certeza de que não conheço a mulher dos meus sonhos. A mulher da minha vida. Peço que não me compreenda errado, novamente. Essa idealização de relacionamento perfeito, conversas em plena sintonia, dois corpos com mesmos anseios, nada mais são do que utopias românticas que jamais deixaram de ser paradigma. Concluí que não há necessidade em buscar, a cada bifurcação, a pessoa que seja a concretização de todos os meus desejos, justamente porque essa não pessoa não existe - e me induzi a questionar tudo.
E, ao tomar um café gelado, amargo e desagradável, observando com atenção um dos olhares mais belos que já tive a chance de conhecer, a única convicção que posso ter é que aqui estou por uma pura sucessão de fatos. É quase um milagre imaginar que caminhos tão opostos nos levaram a mesma direção. Anos separados, isolados e vividos de uma forma completamente distinta para estarmos diante um do outro vivendo em simultaneidade. 

12 de ago. de 2016

(Entrave)


Arte: Lady Lilith, Dante Gabriel Rossetti

Durante a sua infância, seus métodos basearam-se em uni duni te. Logo cedo, ela percebeu que não possuía aptidão para decisões. Lhe parecia insensato demais escolher uma coisa só dentre dezenas (como saber se o que fez foi o correto, se não viveu nos outros caminhos para efetuar comparação?). E mesmo a técnica dos dedinhos parecia não surtir efeito sempre; o indicador apontava para um sabor de sorvete, mas ela queria experimentar o outro também.
Por causa de sua indecisão inata e da vontade de experienciar em demasiado, frustrou-se na vida. Chegou a conclusão de que era muito para um mundo extremamente restritivo. Nunca gostou do disso ou daquilo. Carregava no peito vontades gigantescas: queria fazer duas faculdades, conhecer Milão, Fernando de Noronha e a realidade. Morar em Nova York. Pular de bungee jump e dirigir sem rumo a madrugada inteira. Fazer aula de canto, teatro e cinema. Ela sentia que experimentar era mágico - e estava comprometida a experienciar tudo. Algo em seu íntimo a fazia detestar a impossibilidade natural de se viver dezenas de vidas distintas.
Acabou levando uma vida que a desviou de seus principais objetivos. Frustrou-se com as tentativas de existir. Morreu cheia de ínfimas realizações, pois os desejos perdiam-se em meio a rotina. E, por isso, morreu enganada: o mundo que fora muito para ela. Ela foi pouco: em coragem, tempo, dinheiro. Incapaz de contornar as limitações humanas.

22 de jul. de 2016

(Autodestruição)



Arte: Death and the Maiden, P.J. Lynch
A morte chega
Mesmo antes de irmos
A outro mundo
De fato

Ela chega
De fininho 
Com palavras
Depreciativas
E amianto

Chega
Com o rancor que
Invade o peito e
O sabor amargo
De frases não ditas

Chega
Quando você resolve 
Comer bacon
Ou encher pulmões
Com nicotina

O que posso fazer se
É o escapismo
E a vontade de fugir de mim mesma
Que me matam?

19 de jul. de 2016

(Poemas #1)


Arte: Chaos Is What We've Lost Touch With, Benjamin Garcia


FRAGMENTAÇÃO
Tudo entrou em
Colapso
Quando você deixou
De cantar
Canções de ninar


 PAZ 
Seu sussurro
Alivia meus batimentos cardíacos
Diminuí a tensão em minhas veias 
E faz com que eu tenha essa
Imensa 
Vontade 
De me perder em seus olhos
E ficar grudada em seu corpo


 AMOR 
Meu coração havia explodido
Em pequenos pedaços
Você recolheu os cacos
E disse que eles lembravam
Faíscas de uma fogueira


ALEGRIA
"Uma rosa para uma rosa",
Ele disse
Quando entregou o buquê
E eu,
Sem saber o porquê
Me apaixonei
Pelas flores


INSENSATEZ
Queria poder colorir o mundo
Mas eu só conseguiria deixá-lo castanho
Como a cor dos seus olhos

15 de jul. de 2016

(Sensação)


Arte: Happiness, Joep Buijs
Ele olhava para ela, de vez em quando.
Ela começou a olhar para ele também.
Um tempo mais tarde, ele começou a fazer perguntas bobas. Só para puxar assunto.
Ela respondia e sorria. Suponho que começou a fazer perguntas bobas também.
E aí acho que eles trocaram olhares umas trezentas vezes em menos de uma hora.
O que me fez pensar no amor que existe antes de existir de fato:
Ele flui devagarinho e acaba ocupando pequenas lacunas, antes mesmo de ser pronunciado.
Antes do estômago embrulhar.
Como se o coração já soubesse dos próximos passos.
Como se ele, simplesmente, existisse para essas demonstrações.
Tipo quando você elogia alguém - personalidade, beleza, estilo.
Quando você diz bom dia para o porteiro.
Quando você lembra do seu amigo ao ouvir uma música que ele gosta muito.
Quando alguém corre para te abraçar depois de muito tempo distante.
E sei lá.
Existem milhares de outras situações.
Só me parece estranho a gente querer tanto personificar um sentimento grande demais.
Passar parte da vida tentando diminui-lo a uma só pessoa.
Quando o ele tá ali, sabe?
Trazendo um pouco de luz.
Para um mundo medíocre demais.

9 de jul. de 2016

(Preto e branco)

            
Arte: Departure Of The Winged Ship, Vladimir Kush

Tive o costume falho de imaginar que filmes que retratassem períodos antigos demais deveriam ser produzidos em preto e branco. Achava que seria outra maneira de tornar a história verossímel: a edição deveria ser equivalente ao desenvolvimento das câmeras na época suposta do roteiro. Só aí o telespectador poderia sentir-se como se estivesse no filme de fato. 
Isso porque jamais parei para pensar que a vida é colorida desde o princípio. Nunca tinha chego a essa óbvia perspectiva: há centenas de anos olhos muito semelhantes aos meus observaram coisas tão diferentes.
E isso é um pouco assustador: a forma como fotos alaranjadas me deixaram tão distante do passado. Demorei para perceber que não há barreiras entre os meus antepassados e eu. Por mais longe que estejamos em condições de tempo ou parentesco, ainda sou hoje um bocado do que eles deixaram. 
Contribuições históricas são imensuráveis e sou capaz de dizer que estou onde estou porque muita gente lá atrás tornou isso possível. Gente que começou guerras e revoluções, que resolveu colonizar novas terras e construir famílias. Gente que viu as mesmas cores, respirou nos mesmos lugares... Mas que virou pintura, fotografia preto e branco e história.