21 de ago. de 2016

(Consciência)


Arte: Cupid and Psyche, Benjamin West
Usando seus olhos esbugalhados e trazendo consigo não somente um sorriso inocente, mas um coração sintonizado com as frequências melancólicas, conversamos. Seus relacionamentos entoavam um sonido mórbido e distante, mas ela não deixava de confiar no fato de que tinha um conhecimento quase que absoluto sobre todas as coisas. Dizia que não se encaixava no mundo, como se a falta de pertencimento fosse marca de nascença escrita em braile. 
Mas, para mim, por mais que eu não deixasse transparecer, ela fora simplesmente embrulhada em milhares de equívocos e muitíssimas experiências que moldaram quem ela é hoje. Não me entenda mal: sei perfeitamente que todo o ser humano nada mais é do que a aglutinação de toda a sua história. Mas ela parecia contar a sua de uma maneira específica demais, errada demais. 
Ou só é aí que surge uma paixão - logo nos momentos mais duvidáveis - que me faz vê-la de uma forma como nunca vi ser humano algum. Como se ela fosse o centro do mundo, dotada das qualidades que mais prezo e dos defeitos que mais evito. Paixão essa que os descrentes do amor evitam até o último segundo. Até, é claro, mergulhar num precipício profundo e num mar de rosas ao mesmo tempo. 
Apesar de todo o sentimento que admito ter, me habita também a certeza de que não conheço a mulher dos meus sonhos. A mulher da minha vida. Peço que não me compreenda errado, novamente. Essa idealização de relacionamento perfeito, conversas em plena sintonia, dois corpos com mesmos anseios, nada mais são do que utopias românticas que jamais deixaram de ser paradigma. Concluí que não há necessidade em buscar, a cada bifurcação, a pessoa que seja a concretização de todos os meus desejos, justamente porque essa não pessoa não existe - e me induzi a questionar tudo.
E, ao tomar um café gelado, amargo e desagradável, observando com atenção um dos olhares mais belos que já tive a chance de conhecer, a única convicção que posso ter é que aqui estou por uma pura sucessão de fatos. É quase um milagre imaginar que caminhos tão opostos nos levaram a mesma direção. Anos separados, isolados e vividos de uma forma completamente distinta para estarmos diante um do outro vivendo em simultaneidade. 

Nenhum comentário: