22 de jul. de 2016

(Autodestruição)



Arte: Death and the Maiden, P.J. Lynch
A morte chega
Mesmo antes de irmos
A outro mundo
De fato

Ela chega
De fininho 
Com palavras
Depreciativas
E amianto

Chega
Com o rancor que
Invade o peito e
O sabor amargo
De frases não ditas

Chega
Quando você resolve 
Comer bacon
Ou encher pulmões
Com nicotina

O que posso fazer se
É o escapismo
E a vontade de fugir de mim mesma
Que me matam?

19 de jul. de 2016

(Poemas #1)


Arte: Chaos Is What We've Lost Touch With, Benjamin Garcia


FRAGMENTAÇÃO
Tudo entrou em
Colapso
Quando você deixou
De cantar
Canções de ninar


 PAZ 
Seu sussurro
Alivia meus batimentos cardíacos
Diminuí a tensão em minhas veias 
E faz com que eu tenha essa
Imensa 
Vontade 
De me perder em seus olhos
E ficar grudada em seu corpo


 AMOR 
Meu coração havia explodido
Em pequenos pedaços
Você recolheu os cacos
E disse que eles lembravam
Faíscas de uma fogueira


ALEGRIA
"Uma rosa para uma rosa",
Ele disse
Quando entregou o buquê
E eu,
Sem saber o porquê
Me apaixonei
Pelas flores


INSENSATEZ
Queria poder colorir o mundo
Mas eu só conseguiria deixá-lo castanho
Como a cor dos seus olhos

15 de jul. de 2016

(Sensação)


Arte: Happiness, Joep Buijs
Ele olhava para ela, de vez em quando.
Ela começou a olhar para ele também.
Um tempo mais tarde, ele começou a fazer perguntas bobas. Só para puxar assunto.
Ela respondia e sorria. Suponho que começou a fazer perguntas bobas também.
E aí acho que eles trocaram olhares umas trezentas vezes em menos de uma hora.
O que me fez pensar no amor que existe antes de existir de fato:
Ele flui devagarinho e acaba ocupando pequenas lacunas, antes mesmo de ser pronunciado.
Antes do estômago embrulhar.
Como se o coração já soubesse dos próximos passos.
Como se ele, simplesmente, existisse para essas demonstrações.
Tipo quando você elogia alguém - personalidade, beleza, estilo.
Quando você diz bom dia para o porteiro.
Quando você lembra do seu amigo ao ouvir uma música que ele gosta muito.
Quando alguém corre para te abraçar depois de muito tempo distante.
E sei lá.
Existem milhares de outras situações.
Só me parece estranho a gente querer tanto personificar um sentimento grande demais.
Passar parte da vida tentando diminui-lo a uma só pessoa.
Quando o ele tá ali, sabe?
Trazendo um pouco de luz.
Para um mundo medíocre demais.

9 de jul. de 2016

(Preto e branco)

            
Arte: Departure Of The Winged Ship, Vladimir Kush

Tive o costume falho de imaginar que filmes que retratassem períodos antigos demais deveriam ser produzidos em preto e branco. Achava que seria outra maneira de tornar a história verossímel: a edição deveria ser equivalente ao desenvolvimento das câmeras na época suposta do roteiro. Só aí o telespectador poderia sentir-se como se estivesse no filme de fato. 
Isso porque jamais parei para pensar que a vida é colorida desde o princípio. Nunca tinha chego a essa óbvia perspectiva: há centenas de anos olhos muito semelhantes aos meus observaram coisas tão diferentes.
E isso é um pouco assustador: a forma como fotos alaranjadas me deixaram tão distante do passado. Demorei para perceber que não há barreiras entre os meus antepassados e eu. Por mais longe que estejamos em condições de tempo ou parentesco, ainda sou hoje um bocado do que eles deixaram. 
Contribuições históricas são imensuráveis e sou capaz de dizer que estou onde estou porque muita gente lá atrás tornou isso possível. Gente que começou guerras e revoluções, que resolveu colonizar novas terras e construir famílias. Gente que viu as mesmas cores, respirou nos mesmos lugares... Mas que virou pintura, fotografia preto e branco e história. 

5 de jul. de 2016

(Gaia)

      
Arte: Gaia, Geraldine Arata

Somos todos feitos de hidrocarbonetos, cadeias de quantidades diferentes, compostos que nos tornaram distintos. Repletos de ácidos nucleicos e água. Uma infinidade de átomos. Sei bem que não é porque pensamos de forma muito diferente que posso presumir ser superior. Não sou dona do mundo, animal meu, mas sei que posso torná-lo melhor para mim e para você. 
Não sei se minha presença lhe agrada, ou em que momento você percebeu minha existência. Se é que você sabe que existo, é claro. Não me sinto mal por isso, pois em grande parte de minha vida eu ignoro a existência de vocês, também. Esqueço que o ar que respiro é composto pela respiração de vocês. E como vocês são modificadores do mundo assim como eu, apenas em diferentes proporções. 
Não sei de meu destino e tampouco sei se você aproveita sua vida tanto quanto eu. Só sei que temos algo em comum: viemos de uma bactéria, como se é gentilmente aceito pelos cientistas. E o mundo inteirinho é a casa de todos nós. Por isso, devo tratar-lhes com a mesma paz que desejo possuir. 
Gosto de saber que, não muito distante de mim, há insetos e plantas, que embora existam, não sabem disso. Não tem noção da imensidão que é o planeta onde habitam. O que não é problema algum, pois eu mesma me esqueço disso de vez em quando. 
Queria de alguma forma poder dizer para que vocês aproveitem a vida que tem e receber comentários como retribuição. Quem sabe o que poderíamos aprender uns com os outros? Pediria perdão, também, por tanta destruição. Por agir sem pensar tantas vezes. Mas as coisas são do jeito que são e é provavelmente por isso que tudo é tão especial e único.