| Arte: Sky Painting, Alice Helwig |
Naquele dia, entre conversas sobre emoções e superficialidades, ele me disse que sentia falta de seu primeiro amor. Disse que esse relacionamento fora o último se sua vida, pois jamais se encaixaria tão adequadamente em outra frequência. Tratava-se, então, daquela fase que denomino como entorpecente pós-término (e não existe aqui outra palavra tão sucinta e bem empregada nesse contexto quanto essa: é uma dormência característica que nos faz ter plena convicção de que pouco ou quase nada importa daqui para a frente).
Em meio a seus desabafos, eu disse que o compreendia mais do que ele imaginava. Subitamente, a conversa atingiu um grau mais profundo - o que, convenhamos, por ser tão raro é muito bom quando acontece - e ele me seduziu com palavras por conseguir ampliar visões de mundo.
Ele me disse que ela foi embora, sim, mas isso foi o esperado desde sempre. Não que ele tivesse plena convicção de que eles terminariam um dia ("afinal, nunca podemos ter certeza de uma coisa dessas"). Não que eles tivessem discutido muito nos últimos meses/semanas/dias. Ele só aprendeu, por força de hábito e experiência, que pessoas muito tem a ver com fenômenos naturais. Explico:
Existirão pessoas raio de sol e outras gota de chuva, ou seja, muito além da discrepância existente entre suas características singulares, elas estão perto com grande frequência. Existem outras, por outro lado, que aparecerão com uma periodicidade menor; são luas cheias, minguantes. E outras que aparecem muito pouco, como o eclipse, a lua azul ou o El Niño (o que, como se é perceptível, definitivamente não caracteriza uma falta de impacto na vida de alguém).
Ele me ensinou em meias palavras abarrotadas de metáfora e humildade que, muitas vezes, nos resta aceitar tais efeitos e tentar tirar proveito deles. "E, quem sabe aprendendo com erros e defeitos, podemos nos qualificar como um fenômeno ideal."
Ela fora relâmpago vulcânico (o que é raro, mas suas labaredas assemelham-se com portas para o inferno). Ele trabalha para ser pôr do sol, justamente por valorizar a presença acima de todas as coisas. Eu não soube responder na hora, mas penso que um fenômeno de grande frequência seja, na verdade, muito cansativo. Prefiro ser aurora boreal: aparecer relativamente menos, mas causar mais impacto.
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