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| Arte: Lady Lilith, Dante Gabriel Rossetti |
Durante a sua infância, seus métodos basearam-se em uni duni te. Logo cedo, ela percebeu que não possuía aptidão para decisões. Lhe parecia insensato demais escolher uma coisa só dentre dezenas (como saber se o que fez foi o correto, se não viveu nos outros caminhos para efetuar comparação?). E mesmo a técnica dos dedinhos parecia não surtir efeito sempre; o indicador apontava para um sabor de sorvete, mas ela queria experimentar o outro também.
Por causa de sua indecisão inata e da vontade de experienciar em demasiado, frustrou-se na vida. Chegou a conclusão de que era muito para um mundo extremamente restritivo. Nunca gostou do disso ou daquilo. Carregava no peito vontades gigantescas: queria fazer duas faculdades, conhecer Milão, Fernando de Noronha e a realidade. Morar em Nova York. Pular de bungee jump e dirigir sem rumo a madrugada inteira. Fazer aula de canto, teatro e cinema. Ela sentia que experimentar era mágico - e estava comprometida a experienciar tudo. Algo em seu íntimo a fazia detestar a impossibilidade natural de se viver dezenas de vidas distintas.
Acabou levando uma vida que a desviou de seus principais objetivos. Frustrou-se com as tentativas de existir. Morreu cheia de ínfimas realizações, pois os desejos perdiam-se em meio a rotina. E, por isso, morreu enganada: o mundo que fora muito para ela. Ela foi pouco: em coragem, tempo, dinheiro. Incapaz de contornar as limitações humanas.

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