29 de ago. de 2016

(Divago)


Arte: My World, Laurentiu Dimisca

entre todos os percursos que poderia ter feito
naquela manhã ensolarada,
dentre todos os estímulos que tive,
num dia nada cordial,
dentre todos os sóis que poderiam ter nascido,
justamente o mais iluminado,
entre todos os fluidos que já percorreram o meu corpo,
endorfina resolveu aparecer,
entre todos os pensamentos que ocorriam sem interrupções,
fiquei paralisada com a inércia,
entre todos os sentimentos que poderiam ter aflorado,
curiosidade e certeza
entre todos os lugares que eu poderia ter estado,
encontrei você,
caminhando aturdido pela praça e
com um sorriso enviesado,
soube que você havia me encontrado
também

21 de ago. de 2016

(Consciência)


Arte: Cupid and Psyche, Benjamin West
Usando seus olhos esbugalhados e trazendo consigo não somente um sorriso inocente, mas um coração sintonizado com as frequências melancólicas, conversamos. Seus relacionamentos entoavam um sonido mórbido e distante, mas ela não deixava de confiar no fato de que tinha um conhecimento quase que absoluto sobre todas as coisas. Dizia que não se encaixava no mundo, como se a falta de pertencimento fosse marca de nascença escrita em braile. 
Mas, para mim, por mais que eu não deixasse transparecer, ela fora simplesmente embrulhada em milhares de equívocos e muitíssimas experiências que moldaram quem ela é hoje. Não me entenda mal: sei perfeitamente que todo o ser humano nada mais é do que a aglutinação de toda a sua história. Mas ela parecia contar a sua de uma maneira específica demais, errada demais. 
Ou só é aí que surge uma paixão - logo nos momentos mais duvidáveis - que me faz vê-la de uma forma como nunca vi ser humano algum. Como se ela fosse o centro do mundo, dotada das qualidades que mais prezo e dos defeitos que mais evito. Paixão essa que os descrentes do amor evitam até o último segundo. Até, é claro, mergulhar num precipício profundo e num mar de rosas ao mesmo tempo. 
Apesar de todo o sentimento que admito ter, me habita também a certeza de que não conheço a mulher dos meus sonhos. A mulher da minha vida. Peço que não me compreenda errado, novamente. Essa idealização de relacionamento perfeito, conversas em plena sintonia, dois corpos com mesmos anseios, nada mais são do que utopias românticas que jamais deixaram de ser paradigma. Concluí que não há necessidade em buscar, a cada bifurcação, a pessoa que seja a concretização de todos os meus desejos, justamente porque essa não pessoa não existe - e me induzi a questionar tudo.
E, ao tomar um café gelado, amargo e desagradável, observando com atenção um dos olhares mais belos que já tive a chance de conhecer, a única convicção que posso ter é que aqui estou por uma pura sucessão de fatos. É quase um milagre imaginar que caminhos tão opostos nos levaram a mesma direção. Anos separados, isolados e vividos de uma forma completamente distinta para estarmos diante um do outro vivendo em simultaneidade. 

12 de ago. de 2016

(Entrave)


Arte: Lady Lilith, Dante Gabriel Rossetti

Durante a sua infância, seus métodos basearam-se em uni duni te. Logo cedo, ela percebeu que não possuía aptidão para decisões. Lhe parecia insensato demais escolher uma coisa só dentre dezenas (como saber se o que fez foi o correto, se não viveu nos outros caminhos para efetuar comparação?). E mesmo a técnica dos dedinhos parecia não surtir efeito sempre; o indicador apontava para um sabor de sorvete, mas ela queria experimentar o outro também.
Por causa de sua indecisão inata e da vontade de experienciar em demasiado, frustrou-se na vida. Chegou a conclusão de que era muito para um mundo extremamente restritivo. Nunca gostou do disso ou daquilo. Carregava no peito vontades gigantescas: queria fazer duas faculdades, conhecer Milão, Fernando de Noronha e a realidade. Morar em Nova York. Pular de bungee jump e dirigir sem rumo a madrugada inteira. Fazer aula de canto, teatro e cinema. Ela sentia que experimentar era mágico - e estava comprometida a experienciar tudo. Algo em seu íntimo a fazia detestar a impossibilidade natural de se viver dezenas de vidas distintas.
Acabou levando uma vida que a desviou de seus principais objetivos. Frustrou-se com as tentativas de existir. Morreu cheia de ínfimas realizações, pois os desejos perdiam-se em meio a rotina. E, por isso, morreu enganada: o mundo que fora muito para ela. Ela foi pouco: em coragem, tempo, dinheiro. Incapaz de contornar as limitações humanas.